Porque existe uma variação de preços tão grande nos vinhos?

Eis uma excelente pergunta e dou-lhe, desde já, os parabéns por estar a ler estas linhas pois só revela uma salutar curiosidade por um lado e o questionar dos factos sendo que a maioria das pessoas aceitam perante um vinho caro a sua qualidade, como se a isso fossem obrigadas.

Confesso que a primeira resposta que me veio à cabeça foi questionar-me igualmente porque há carros que são mais caros do que outros, mas vi logo que a analogia é descabida. Vê, também erro e sou obrigado a voltar atrás em demanda da verdade, pois os vinhos são toda uma outra história que nada tem a ver com porcas e parafusos. Vamos a eles.

A primeira tentação é ligar os custos ao preço de venda afirmando que nas regiões mais difíceis os custos são maiores logo os vinhos têm de ser mais caros, podia ser assim, mas não é. Vamos dizer, para simplificar alguma coisa, que os custos de tratamento e vindima em cada região são semelhantes. Eu sei que é uma simplificação abusiva, mas vamos assumi-la.

Para começar pelo princípio, é sempre conveniente, vamos dizer, e isto sim é importante, que para se obter um grande vinho são necessárias grandes uvas, leia-se uvas resultantes de videiras velhas com baixas produções, de onde decorre que as uvas têm muito maior concentração. Temos aqui uma grande quebra de rendimento que tem de ser recuperada mais tarde. Primeiro factor.

Uma vez na adega, vamos ter um investimento consideravelmente superior pois as fermentações serão mais longas, mais cuidadas, mais vigiadas por forma a conseguir uma maior extracção das substâncias das uvas. Segundo factor.

Com frequência estes vinhos vamos dizer melhores, adormecem na madeira, barricas novas, e passam lá umas boas fériaspara além de domarem os seus aromas e sabores, extraírem da madeira a sua nobreza. Esta operação requer: aquisição de barricas, maiores custos de mão de obra, investimento superior pois os vinhos necessitam de mais tempo até estarem prontos. Terceiro factor.

Soma-se que uma vez encontrado o lote ideal, vinhos, tempo passado em barricas etc., engarrafam-se e guardam-se para, adormecendo, refinaremos seus sabores. É preciso esperar por eles. Quarto factor.

Acresce que para os melhores vinhos se compram garrafas mais caras, melhores rolhas com idêntica consequência, melhores cápsulas, soma e segue, e rótulos mais afinados para que bata a bota com a perdigota, isto além de caixas mais robustas e elegantes, afinal há um nome a defender. Quinto factor.

Uma vez prontos porque mais caros saem mais devagar, portanto o investimento demora mais tempo a ter retorno. Sexto factor.

Tudo isto somado e já se percebe que um vinho destes não pode ter, nem deve, o preço dum vinho do ano, não, tem de ser mais caro!

Agora devo alertar para o facto de que há vinhos vestidos de forma elegante, atraente, em grandes garrafas, com rótulos caros e vistosos num todo de levado preço, mas cujo conteúdo desilude, são vinhos com demasiado marketing e pouco vinho.

Um conselho: abrace os primeiros, fuja dos segundos. Afinal é a diferença entre preço e valor. O que verdadeiramente conta é o segundo.

Tenho dito.